Alberto Manguel apresenta em seu texto “Os Leitores Silenciosos”, a passagem da leitura oral para a leitura silenciosa que se deu entre os sécs. IV ao XII. Coloca como referência deste processo Santo Agostinho, e como adepto da leitura silenciosa o Bispo Ambrósio. Apresenta costumes, valores morais e religiosos que conduziam a sociedade à leitura oral como única naquele período. E relata que através do advento da leitura silenciosa, o formato e a maneira de escrever um texto começou a se adaptar, adequando cada vez mais com o formato de texto que conhecemos hoje. Embora a abertura para essas mudanças tenha sido benquista, houve uma renuncia do clero, no começo do séc. XII, julgando hereges os homens que praticavam a leitura silenciosa, condenando muitos a pena de morte.
Antes do séc. X a leitura era realizada apenas em voz alta, as palavras escritas eram feitas para serem pronunciadas oralmente, as palavras eram signos de sons, para os leitores da época, ler era o mesmo que conversar com o autor do texto, quando este estava ausente. Acreditavam que as palavras faladas eram a alma do texto, e que, em quanto o escrito permanecia no papel o pronunciado era capaz de voar e ter vida. O leitor tinha por obrigação emprestar a voz às letras silenciosas e transformá-las em palavras vivas.
A leitura oral, também era considerada sagrada, e nada do divino poderia se perder na leitura. A própria leitura era um ato sagrado, e vinha acompanhada de rituais e muita fé.
A leitura em voz alta estava presente dentro das bibliotecas, todos que a freqüentava eram acostumados a ler com barulho, não há registros de queixas, talvez não escutassem o alarido, talvez não soubessem que era possível ler de outra maneira.
Dentro deste contexto, em 383, estava Santo Agostinho, conhecido apenas como professor de retórica latina, este chegou em Milão com o intento de lecionar, lá reencontrou um antigo amigo de sua mãe, o bispo da cidade, Ambrósio, e foi a partir deste contato que as indagações sobre a leitura começou a fazer parte de sua rotina.
Ambrósio era um orador extremamente popular, no entanto seu maior prazer era ficar sozinho lendo em voz baixa, jamais lia em voz alta. Para Agostinho, ler era uma forma de pensar e falar, e era uma habilidade oral: oratória, e pregação, não concebia a idéia da leitura silenciosa.
As leituras eram públicas e os textos medievais necessitavam de ouvidos, ou seja, público. Por esse motivo, os textos obedeciam a um formato adequado para o tipo de leitura, as letras não eram separadas, mas sim amarradas em frases contínuas, por isso tinham formatos de carretéis de letra. Este tipo de escrita, em rolos, também não separavam minúsculas de maiúsculas e nem utilizavam pontuação, eram textos direcionados a quem sabia lê-los, a quem já era acostumado a ler em voz alta, desembaralhando as palavras antes de pronunciá-las. Os textos tinham a necessidade de serem ensaiados antes de serem lidos ao público, pois poderiam espalhar diversas interpretações.
Com intuito de auxiliar os leitores não muito habituados o texto começou a ganhar novos formatos e pontuações, primeiro com o surgimento do códice, (papiro encadernado e manuscrito em escrita contínua) adotado pelos cristãos primitivos, depois a separação das palavras, dividindo o texto em linhas de significado.
Foram através dessas primeiras modificações que surgiu o incentivo à leitura silenciosa, e causou uma série de modificações dentro do scriptoriums, nas bibliotecas e nos leitores habituais, assim como em Agostinho, o qual viveu uma passagem da leitura em voz alta para leitura silenciosa, percebendo há existência de uma melhor assimilação quando a leitura bíblica era realizada em silêncio.
Após o séc. VII, surgiu uma maior combinação de pontuação, e no séc. IX os escribas já estavam habituados com o novo modelo de escrita, introduzindo mais modificações para simplificar a leitura do texto. A partir de então, tais mudanças não cessaram, aproximando cada vez mais o texto medieval do modelo que utilizamos atualmente.
A leitura silenciosa, por sua vez, veio trazer uma melhor compreensão à medida que seu leitor pôde através dela: refletir mais sobre o assunto lido; ler de acordo com seu tempo; realizar comparações com outros livros guardados em sua memória; e carregar o livro como objeto íntimo e pessoal.
Com o passar dos sécs, através da leitura silenciosa alguns dogmatistas perceberam uma série de heresias se formando ao redor do livro sagrado. No séc. XII, a igreja instituiu a pena de morte, condenando muitos hereges a fogueira, por considerá-los leitores independentes perigosos. A leitura silenciosa e oral começou a ser alvo de discussões e de perseguições dentro das igrejas, uns diziam que a leitura da palavra de Deus deveria ser realizada por si mesmas; enquanto outros diziam que o livro no qual a igreja havia sido fundada deveria permanecer um mistério.
SEJA BEM VINDO!!!
Sinta-se à vontade para refletir sobre o rico meio de se comunicar.
quinta-feira, 20 de maio de 2010
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Um comentário:
Samanta, observei em vários textos, inclusive no seu resumo uma pequena confusão. Você disse "As leituras eram públicas e os textos medievais necessitavam de ouvidos, ou seja, público. Por esse motivo, os textos obedeciam a um formato adequado para o tipo de leitura, as letras não eram separadas, mas sim amarradas em frases contínuas, por isso tinham formatos de carretéis de letra."
A ordem me parece inversa. A leitura em voz alta era usada naquela época porque o texto escrito não possuía marcadores gráficos que facilitassem a leitura silenciosa. O texto era um contínuo de palavras emendadas umas após as outras, sem pontuação, parágrafo. Ler em voz alta era então um recurso que permitia separar as palavras, pontuar o texto e dividi-lo em partes para assim compreender o que estava escrito. Era um modo de dar forma ao texto.
Percebe a diferença?
Beijo, Márcia.
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